SOB ESSES DIAS — parte 01

Produzindo na quarentena e a crise de identidade

I’m a man of contradictions

I’m a man of many moods

I contain multitudes

Bob Dylan

Do I contradict myself?

Very well then I contradict myself

(I’m large, I contain multitudes.)

Walt Whitman

Vamos às novidades de viver sob esses dias inteiramente fora de qualquer possibilidade de vida normal e sua repercussão na minha produção artística, e até na minha noção de identidade.

Primeiro a quarentena me paralisou. Eu estava começando a escrever um livro e parei. Tinha planos de ler uma bibliografia extensa sobre alguns assuntos que me interessam e não consegui manter o foco. Logo no início da pandemia tranquei a faculdade de Letras. Definitivamente, os grandes projetos desandaram.

Me conformei com a falta de produtividade e passei a viver um dia de cada vez. Me mantive ocupado com as lives — que começaram semanais e agora viraram mensais — e com os vídeos das séries “O Grão da Canção” e “Poesia é difícil, que bom” — estes últimos paralisados no momento por falta de organização minha, mas que devem voltar no mês que vem com a mesma frequência mensal das lives. Passei a me considerar muito eficiente apenas em conseguir manter razoavelmente essa atividade. As inscrições no meu canal do YouTube cresceram bastante, como cresceram as visualizações.

Aí veio a surpresa. De repente tenho muita música para lançar, mas nada com o meu nome. Ou melhor, tem “Razão pra te amar”, uma parceria com o Henrique Portugal, que será lançada pelos dois. Nessa eu sou eu, mas não sou só eu.

A difícil tarefa de fazer um hipopótamo voar

O primeiro trabalho, já na rede, é “Na esquina mais escura do mundo”, single do coletivo O Hipopótamo Alado. Produzido de forma colaborativa com Lourenço Monteiro, Humberto Barros e Fabiano Calixto, esse projeto vem se desenvolvendo há alguns anos, mas agora está maduro para começar a ganhar as ruas. As virtuais, claro, já que as das cidades não verão um show — nem uma peça, nem um filme em cinema — por muito tempo ainda. Só para não deixar de mencionar, show em drive-in não é show. Não tem olho no olho, não tem proximidade e é uma forma muito esquisita de agradar a elite motorizada. Além de envolver um contingente enorme de pessoas para que ele seja possível. Se o público corre um perigo pequeno, não podemos dizer o mesmo da galera de transporte, montagem, logística e técnica. Voltando ao assunto, no dia 24 de julho, próxima sexta-feira, sai o segundo single, nossa versão muito dark e pesada de “Farrapo Humano”, canção de Luiz Melodia, lançada em 1973, período mais violento da nossa Ditadura. Em setembro sai “Meu coração pingando sangue na varanda do planeta”, que completa esse primeiro EP da banda. Músicas sombrias para tempos ainda mais.

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