SOB ESSES DIAS — parte 03

Ponte Rio-BH

Outra frente aberta ano passado que acabou dando frutos na quarentena é minha parceria com o Henrique Portugal, tecladista do Skank. Em outubro do ano passado fiz uma participação no show dele em BH. Antes de ir embora, deixei uma letra com ele, para iniciar um bate-bola de composições. Um mês depois recebi um áudio com uma parte da música, o refrão. Tinha um tom bem mineiro, uma melodia muito rica sobre um piano com ascendente em Elton John. Mais um mês se passou e recebi a melodia da primeira parte. Também muito legal. Comecei a brincar com ela, mexemos um pouco e o Henrique me pediu um adendo de letra. No primeiro verso eu digo: “Eu não tenho nenhuma razão pra te amar / Afinal a razão não é razão para o amor.” E termino com “Eu descarto a razão, loucamente feliz / Eu não tenho nenhuma razão pra te amar.” Para mim estava claro que eu estava dizendo que o amor não é comandado pela razão, mas pelo afeto. Que a gente ama até contra a nossa racionalidade. Que, muitas das vezes, a gente ama sem nem saber o porquê, que há muito de loucura e de gatilhos inconscientes no que nos ligam a quem amamos. E que isso é o lado mais bonito do amor. Ele é uma forma potente de resistir ao utilitarismo e à previsibilidade da vida contemporânea. Mas tanto ele, quanto a namorada, quanto a Luciana Fregolente — minha mulher e musa do poema — ficavam incomodados com a ideia, porque, para eles, parecia que a pessoa amada não tinha nenhuma qualidade, que não era merecedora de ser amada. Para desfazer essa impressão, acrescentei um rabicho no fim da canção, uma parte diferente com a conclusão: “E te amo tanto assim / sem plano, sem cais / E te amo tanto assim […].” No fim, ficou com cara de Clube da Esquina ou algum outro tipo de MPB setentista. A coisa funcionou tanto entre nós que, um dia depois de darmos por terminada a canção, o Henrique me mandou uma melodia para letrar. Dez dias depois mandei um “monstro” e mais uns dias estava pronta “Me largo no mundo”.

Essas duas canções foram concebidas para o trabalho solo do Henrique, algo para depois da turnê de despedida do Skank — isso foi antes da pandemia e da turnê ter sido cancelada ou adiada, não se sabe. Mas “Razão pra te amar” não me saía da cabeça e, em fevereiro mandei uma demo meio blues — violão e voz — da parceria. O Henrique gostou, mas achou que estava meio triste, o que, somado à letra meio dúbia, podia levar a uma impressão estranha e reforçar a ideia de se tratar de um amor qualquer.

Continuei a pensar na canção e a tocá-la em casa. No dia 9 de abril, dia seguinte do meu aniversário, há quase um mês em quarentena, perguntei se ele se incomodava que eu também gravasse a música, se isso atrapalharia ou ajudaria em relação ao seu trabalho solo. Para minha surpresa ele veio com a ideia de gravarmos juntos, mas uma versão mais alegre e mais pop. Depois de muitas idas e vindas de ideias, de problemas logísticos, pedi para fazer uma gravação produzida pelo Antonio, inspirada nas ideias que o próprio Henrique havia dado.

Começamos as gravações e a coisa deu uma parada inesperada. Meu filho ficou muito mal, a suspeita era de COVID. Teve que ficar isolado por 15 dias. Isso depois do próprio Henrique ter passado vários dias de cama por conta de um séria crise de coluna. Os exames do Antonio deram negativo e meu parceiro se recuperou, mas as gravações tinha perdido o impulso, porque nesse meio tempo engrenei em outras histórias, como recuperar algumas canções antigas que estavam dormindo no HD e compor uma canção do zero com a Zélia — sobre isso, falo adiante. E ainda rolou o lançamento do single do O Hipopótamo Alado.

Mas, numa das minhas lives, apresentei duas canções inéditas para que o público me ajudasse a definir meu próximo single e “Razão pra te amar” ganhou com folgas. Isso me deu certeza de que deveria gravá-la. Só que a vida vai dando voltas… Ainda mais quando se está trancado em casa, com os dias se repetindo e se amontoando, como os jornais que têm ficado do lado de fora por conta da nossa preocupação com o vírus. Resumindo, só voltamos ao que estava gravado essa semana. Para minha surpresa, depois de convertermos as gravações para um formato que o Henrique preferia, escutando o que tínhamos, achamos que estava quase pronta. Pelo menos pronta o suficiente para mandarmos para o meu parceiro acrescentar/mudar o que quiser. Para nossa imensa alegria, ele adorou o que ouviu, falou que vai acrescentar detalhes, mas que também acha que está bastante pronta. Por conta das referências do meu filho, a versão é bem pop, com elementos de regaetton, e bem mais solar que a minha interpretação blues. Em breve devemos ter essa faixa finalizada. Pode entrar na fila para ser lançada depois do single da nova banda Lorem Ipsum e antes do EP do O Hipopótamo Alado. Mas tudo pode acontecer, como tudo vem acontecendo.

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