SOB ESSES DIAS — parte 05

Multitudes

Escrevi esse texto imenso para tentar dar alguma ordem nessa bagunça de três bandas e uma dupla. Tanto para mim quanto para quem quer saber o que estou fazendo. Mas o impulso que mais importou foi o de me organizar internamente. E isso me fez pensar muito a respeito de identidade, coerência, tanto pessoal quanto profissional. A gente acredita nessa narrativa iluminista de sujeito, de individualidade. Quantas vezes a gente ouve na vida que é importante se conhecer para poder vir a ser quem a gente realmente é? Depois de tanto tempo de carreira — e de um tempo ainda maior de vida –, tenho a convicção de que encontrar uma unidade que amarre uma existência, ou mesmo uma obra, é um problema sem solução. Em primeiro lugar, não acredito que seja possível ter uma essência individual. Não somos seres desconectados dos nossos tempos, do nosso ambiente, da nossa classe social, das possibilidades dos nossos corpos. Somos o que podemos ser — já dizia Humberto Gessinger — em relação a tudo mais. Depois, não existe identidade como sinônimo de constância, não somos idênticos no tempo. Tudo muda o tempo todo no mundo — já dizia o filósofo Nelson Motta em sua parceria com o Lulu Santos. Filosofia e música pop unidas para sempre.

Por fim, em música, como em qualquer atividade artística coletiva, ainda há outro aspecto importante a se considerar. As colaborações alteram não só o resultado final, como as abordagens e as propostas de quem está participando. Então, um trabalho com a galera do Hipopótamo Alado vai gerar processos e possibilidades muito diferentes do meu trabalho com o Furacão de Bolso, banda que vem tocando e gravando comigo desde 2008, mesmo que o Lourenço Monteiro faça parte das duas bandas.

O que se destacou nessa quarentena, para mim, foi o acontecimento não programado dessa multiplicidade de colaboradores e possibilidades. Para poder ter essa liberdade artística, não tenho nenhum problema em ser incoerente, múltiplo, fragmentado.

Mas, vocês poderiam me perguntar, isso não é ruim para a divulgação e para o marketing? Sim. Péssimo. Um problemão. Só que, nesse momento de profunda revisão pessoal e social que o mundo está passando, ficar fazendo a mesma coisa é perder uma chance enorme de exploração interior. E não é para descobrir quem sou eu, mas para me permitir ser uma multidão. Melhor ser a metamorfose ambulante de Raul Seixas, ser um camaleão como Bowie ou conter as multidões (ou variedade de opções) de Whitman e Dylan.

Então vou encarar o lançamento dessas ideias artísticas díspares, sem um plano de lançamento bombástico, nem sequer uma explicação inteiramente convincente para essa coincidência cronológica de heterônimos. Parto para a viagem sem expectativas, a não ser a de me divertir muito no caminho. Quem quiser que me acompanhe. E eu estou torcendo por multitudes.

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